domingo, 18 de novembro de 2012

São Paulo escondeu seus rios para que os carros pudessem passar



São Paulo escondeu seus rios para que os carros pudessem passar

Quem mora em São Paulo já deve ter visto, principalmente durante o verão, ruas e avenidas alagando e provocando enchentes em regiões específicas da cidade. A cada chuva um pouco mais forte, a cidade entra em estado de atenção, causando transtornos e prejuízos incalculáveis.
Há muitos motivos pelos quais a natureza reage dessa forma e um deles está bem embaixo dos nossos pés: são os rios, córregos e riachos canalizados sob o asfalto, que sofreram com a urbanização desenfreada, ocupação indevida e impermeabilização do solo, para dar lugar principalmente a ruas e avenidas.
Durante o processo de desenvolvimento, os rios que cortavam as cidades passaram de áreas super valorizadas e grandes aliados para serem vistos como obstáculos ao crescimento – já que o processo "rodoviarista", do qual somos vítimas, precisava de cada vez mais espaço para justificar sua existência e manutenção.


Sepultamos 4 mil km de riachos e córregos

As áreas fluviais, perfeitas para atravessar a cidade a pé ou de bicicleta devido à sua topografia praticamente plana, foram transformadas nas pistas das famosas Marginais Pinheiros e Tietê (que têm esse nome justamente por seguirem às margens desses rios), além de avenidas como a Nove de Julho (construída sobre o córrego Saracura) e a 23 de Maio (sobre o Itororó).
Segundo o arquiteto e urbanista Alexandre Delijaicov, da FAU/USP, um dos grandes responsáveis pela mudança de paradigma que transformou São Paulo veio da gestão do prefeito Prestes Maia, que governou de 1938 a 1945, e eliminou 4 mil quilômetros de riachos, córregos e suas margens – essas consideradas ótimas opções de lazer em metrópoles como Paris e Londres.
Delijaicov é hoje o responsável pelo projeto de criação de um Anel Hidroviário em São Paulo de 600 km de extensão, conectando os rios Tietê, Pinheiros e Tamanduateí e as represas Billings, Guarapiranga e Taiaçupeba.
“O projeto não é uma fantasia. É economicamente viável. Mas depende uma política de estado”, diz o urbanista. Saiba mais no site do projeto “Metrópole Fluvial”
Beco do Grafitti (ou Beco do Batman), na Vila Madalena, em São Paulo. Em dias de chuva muito forte, o rio reaparece em seu curso original. Imagem: Reprodução

Pela recuperação dos nossos rios

Um movimento de reconhecimento e valorização dessas áreas começa a ganhar força em São Paulo. No início de novembro, por exemplo, aconteceu na Vila Madalena o manifesto “Existe Rio em SP“, onde diversos coletivos, grupos, empresas e pessoas promoveram um grande encontro com dezenas de atividades, propondo o despertar da consciência sobre a importância dos nossos rios, dos espaços públicos e comparando a cidade que temos com a que queremos.

O Rio Verde submerso na Rua Medeiros de Albuquerque.
Imagem: Rios e Ruas
Marco inicial escolhido para simbolizar a nascente do Rio Verde - Foto Cristina Morales/ Divulgação Rios e Ruas


O coletivo Rios e Ruas foi o responsável pela expedição feita a pé e de bicicleta, que percorreu o traçado do Rio Verde. Hoje canalizado, o rio nasce na estação do Metrô e entra na Vila Madalena, percorrendo um trajeto que passa pelos dois Becos do Graffiti. Veja fotos.

Entre as reivindicações do Movimento Existe Rio Em SP está o pedido de construção/instalação de um parque ao longo do Rio Verde. ”A proposta do Parque Linear Rio Verde se deu a partir do Termo de Compensação de Impacto Ambiental oriundo do Consórcio Via Amarela. A criação de um parque ao longo do Rio, na Vila Madalena, objetiva resolver o problema das enchentes e preservar o caráter cultural pelo qual o bairro se tornou famoso”, diz o manifesto.


Vendo a cidade com outros olhos

Outro caso interessante é a ciclovia que beira o Rio Pinheiros. Mesmo com poucos acessos e algumas críticas, pedalar por ela tem se mostrado uma ótima oportunidade para ver (e sentir) de perto o que décadas e décadas de descaso fizeram com a nossa biodiversidade. Sair das bolhas de isolamento que a sociedade nos coloca permite perceber e lembrar que somos todos responsáveis pelos rumos que a cidade toma.

“A população paulistana, há décadas, tem sido levada a acreditar que os rios da cidade são inimigos do cidadão, pois trazem mau cheiro, doenças, inundações, impedem a ocupação e prejudicam o fluxo do trânsito. Tal crença tem justificado o progressivo soterramento de uma fabulosa malha hidrográfica que se revela no verão – época das chuvas – quando centenas de córregos e riachos voltam a correr sobre as ruas da cidade”, diz o site do coletivo.

Entre Rios

O documentário a seguir mostra um pouco de como aconteceu toda essa transformação em São Paulo, trazendo um relato histórico sobre o desenvolvimento "rodoviarista" que modificou tão profundamente a vida e os costumes dos paulistanos. ”Entre Rios” foi produzido pelo coletivo Santa Madeira e é um daqueles registros fenomenais que vale a pena rever sempre.



Fonte de Informação: vadebike.org por Aline Cavalcante
Projeto Rios e Ruas